A Era Saldanha na Seleção

Em 1969, na sala do apartamento em que morava em Ipanema, no Rio de Janeiro, João Saldana disse sim ao convite para ser treinador da Seleção Brasileira. Tinha início, assim, a "Era Saldanha", que durou de 4 de fevereiro de 1969 a 17 de março de 1970. Mas como um conhecido militante de esquerda, filiado desde a juventude ao Partido Comunista do Brasil (PCB) chegou ao comando técnico do time de futebol nacional no auge da ditadura militar (já sob a vigência do AI-5, desde 13 de dezembro de 1968)? Segundo o jornalista João Máximo, Saldanha passou por alguns episódios de perseguição depois do golpe de 1964 e trabalhou como pôde em jornais, tvs e rádios, uma vez ou outra fugindo da censura. Alguns comunistas famosos com residência e emprego fixo, caso de João Saldanha, eram vigiados de perto pelos militares, sem chegar ao ponto de precisar deixar o país. O que permitiu ao João Sem Medo chegar a 1969 livre e vivo.
O que pesou mais, no entanto, foi o lado esportivo. Em 1966 o Brasil foi eliminado da Copa da Inglaterra depois de um desempenho pífio no torneio. Naquele ano 44 jogadores foram convocados pelo técnico Vicente Feola, não pela abundância de craques, mas por pressão dos clubes na montagem da lista, feita a portas fechadas. O ano de 1968 foi marcado por resultados negativos da Seleção, que fizeram o torcedor perder a paciência. João Havelange, presidente da CBD, queria resgatar a confiança no time. Para isso, pensou em Saldanha guiado pelo prestígio, carisma e popularidade do comentarista. Havelange acreditava que nenhum jornalista teria coragem de criticar um colega de profissão. Ledo engano. A estratégia do dirigente não funcionou de imediato. A imprensa não deu o apoio esperado a Saldanha, mas as seis vitórias em seis jogos acompanhada da classificação para a Copa de 1970 fizeram os comentaristas mudarem de opinião. O que ganhou e convenceu o torcedor a ir ao estádio apoiar a Seleção, no entanto, foi o inconformismo do técnico com jogadores que entrassem em campo cabisbaixos e desmotivados, sem vibração. A Seleção de Saldanha era formada por 11 feras, na palavra do técnico.Daí surgiram as famosas "feras do Saldanha". As entrevistas do técnico engrandeciam o Brasil, antes desacreditado, e fizeram com que o João Sem Medo atingisse 71% de aprovação dos brasileiros.
Dois ex-campeões do mundo em 1970, que atuaram pelo Santos, Clodoaldo e Edu lembram com carinho do treinador. – Ele era um grande técnico. Era jornalista, sabia lidar com a imprensa. Quando ele assumiu, botou todo mundo numa sala e falou ‘meus 11 titulares são esses aqui.Formou a base da Seleção Brasileira de 1970 e, para mim, teve uma grande participação na conquista do tri. Ele nos passou sua grande experiência no mundo do futebol, que tinha como radialista – afirmou Clodoaldo – Em 1966 eu era muito jovem e em 1969 foi um ano maravilhoso para mim fomos tricampeões paulistas.  Quando chegamos na Seleção, Saldanha me disse que eu seria o titular, porém ele disse que queria o Edu jogando como no Santos. Acabei sendo o destaque daquelas Eliminatórias e graças a ele, que me deixou jogar à vontade. Foi muito bom trabalhar com o técnico João Saldanha, grande pessoa e muito inteligente – lembrou o ex-meia Edu.

Comentários

Postagens mais visitadas